Como chegar a uma crítica, sobretudo cultural?

SEILÁ…

Como eu me sinto pós aulas… louca…

…não que eu não goste…

muitos questionamentos explodem!!!!

Como destruir conceitos tendo impregnado, no corpo, uma educação castradora? Como se desprender da docilidade advinda da perspectiva romantismo/idealista, em demasiado, essa que nos cega? Como pensar o fora? Como transgredir os pensamentos? Como deixar o ranço do desejo de perfeição e criar porosidades propositalmente críticas? Quais estratégias de mobilização e reflexão adotar? Como quebrar a forma? Que antídoto devo tomar? Como ritimizar esse corpo lento? Como deixar de ser careta, conservadora, normativa?

Potencializar a vida é um dos maiores desejos, mas como?

Deixar de querer? Só pode!

Tenho apenas um posicionamento precário e imaturo. Se é que tenho mesmo!

 

 

 

Enfrentamento tardio da própria produção de subjetividade: passos à uma (des)docilização do corpo

 

“O importante e bonito do mundo é

Isso: que as pessoas não estão

Sempre iguais, ainda não foram

Terminadas, mas que elas vão

Sempre mudando. Afinam e desafinam”.

Guimarães Rosa

“Nós temos olhos que se abrem para dentro,

esses que usamos para ver os sonhos”.

Mia Couto

“Não é no silêncio que os homens se fazem,

mas é na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”.

Paulo Freire

 

Quando broto, o sonho era ser bailarina. Por se enxergar; “gorda”, “botijão”, “bolinha de sabão”, “bolo fofo” ou “fofão”, como apelidada, se autoanulou. Com o consumo de cultura, a única disponível, programas de TV/Desenhos/Novelas, o sonho passou a ser o de tornar-se atriz. Muito tímida, com um corpo silenciado, recolheu mais esse desejo. Intimamente inquieta, o sonho se transformou no simples desejo de ser desinibida, falastrona, oradora de turma, de grupos, de lugares. Mas, introspectiva continuou. Ao florescer, despertou a vontade de escrever e inventar histórias. Outro desejo descartado, pois de literatura não dominava. Por um acaso, experienciou criar imagens filmicas. Base artística não tinha, mas ali descobriu outras possibilidades. Na verdade, talvez ali, resolveu “renascer”, fazer brotar-se novamente.

Quantos mecanismos de poder e opressão se fazem presentes ao longo da nossa existência. Quantos impedimentos. Quanta autodestruição e desejos clandestinos…

Lembranças assim, quando “provocadas” a serem revividas, o foco vai em direção à descoberta dos significados velados para serem enfrentados. Fazendo isso, dando passos atrás, imergindo, autorreflexões podem vir à tona como possibilidade de construir novas formas de pensar. Quem sabe?

Não seria preciso pensar e repensar a vida e romper barreiras, mesmo que tarde? Chegar à conscientização da nossa realidade, reconhecer nossa identidade, talvez silenciada e aprisionada por grilhões invisibilizados? Talvez assim, seja possível enfrentar situações para ser o que se deseja ser? Não conseguimos/conseguiremos dar forma aos nossos planos e tecer nossa própria obra? Talvez não seja preciso se abrir e atentar para as mediações, muitas vezes, dispersas?

O percurso escolar, embora a partir de uma estrutura ditatorial e tecnicista pautada na lógica da produção em série e na imposição de um corpo obediente, ou melhor, dócil, despertou mesmo que em cenas marginais com pequenos estímulos, não uma tomada de consciência, mas a permanência de um espírito curioso. Na verdade, por meio de alguns professores, mal sabiam eles que foram/são impulsionadores, que ocorreu/ocorre um estímulo tímido e simplório do aspecto, curiosidade. Somado a isso, à inquietação, aos desejos, mas, sobretudo, ao espírito audaz, aos sonhos/curiosidades, o desejo de conhecer e aprender permaneceram e “sobreviveram” às barreiras e obscurecimentos. Resistiu! Continuou latente mesmo que sem se ter clareza de tal existência desde sempre. Aqui está. Pulsa. Hoje, ganhou corpo! Isto é, tomou impulso, pois, iniciou o processo de (des)docilizacão ao tomar consciência de que é possível ser. 

(Des)docilizar é se transformar, é ir do doce ao azedo, do salobro ao salgado, e depois ao picante. Se rebelar, transgredir… Nada muda da água para o vinho instantaneamente. O percurso é longo, e foi! Da autoanálise à conscientização ao enfrentamento e tomada de atitude na tentativa de desconstrução da docilização imposta. A autoanálise a partir de muitas imersões vividas, contato com outros grupos morando em outro estado, vivendo longe da “redoma” e da zona de conforto, foi o que proporcionou desvelar que, por muito tempo, ser conveniente era bom porque ser reconhecida “doce”, “fofa”, “educada”, “boa moça” era cômodo, mas que não se tinha voz/vontade própria. A conscientização aconteceu tardiamente, há pouco mais de cinco anos, pois, o sistema patriarcal, a proteção familiar, as amizades protetoras, também, manipuladoras anulavam forças. Descobriu-se o quanto eram “sufocantes”, “cerceadoras” e “anuladoras” do devir. O enfrentamento e tomada de atitude ocorreu/ocorre em pequenos passos; primeiramente, exteriorizando o desejo de romper com a estética de beleza branca tida com a ideal; aderir maneira própria de se vestir, frequentar lugares, se alimentar; finalmente, aceitar sua estrutura corporal, “redonda”; reconhecer e assumir a identidade de negra indo de encontro com a lógica escravista do “cabelo liso” deixando fluir seu “cabelo natural”, e ainda, incorporando cores vivas e étnicas além de acessórios, um dos maiores desafios ao “mostrar-se” como mulher. Seguindo essa lógica, a ideia é continuar apostando em leituras, as mais variadas, incluíndo leituras clássicas, filosóficas, feministas e marginais; também, na participação de rodas de conversas com pessoas que realmente agregam valor porque representatividade importa!

É importante reconhecer que outras influências estiveram presentes ao longo da infância, da adolescência, na juventude, e na vida adulta embora muito singelas. O processo de tomada de consciência, do despertar, da tomada de atitude foi um processo doloroso e solitário. Tudo demorou muito tempo para acontecer. A mãe, amiga de infância, professores, colegas esporádicos e amizades recentes, talvez tenham sido muito sutis nas problematizações. No fundo, foram os “desconhecidos” que ajudaram nesse processo; autores que foram apresentados, lidos e (re)lidos e os buscados que muito inspiraram, inquietaram, instigaram e continuam a provocar/despertar. A “liberdade” seria vivida desde cedo, no entanto, o peso dos modelos alienantes, o pouco empoderamento, o lugar de fala anulado, impediram. Contudo, apesar da consciência tardia e da atitude mais tardia ainda, inquietudes explodiram. Hoje, de doce, à azeda, e à picante, com orgulho. O meu corpo luta para transbordar e tenta influenciar outros corpos! Hoje, podemos ajudar que novos corpos se (des)docilizem mais rápido.

Mas que barreiras foram/são essas? A negação de si pela vontade de ser outro. A introspecção de não emitir voz e opinião, concordar ou discordar e “brigar” por seu lugar de fala. O não entendimento do que é ser/torna-se mulher independente/empoderada. A escravidão estética. O “peso” de ser gorda…  Barreiras difíceis de romper. Mas que maravilha é o dia em que a vontade de mudar e de se aceitar emerge, e mesmo vindo à tona uma raiva ao descobrir que muita angústia poderia ser evitada, a tomada de consciência, sobretudo, de atitude é imprescindível para se ter paz.

De fato, seria bem mais fácil se tivessem nos dito que a “existência precede a essência”, e que poderíamos seguir em paz, no compasso das nossas descobertas naturais, lentas, tardias e no rumo da construção da nossa essência que tem seu tempo próprio. E agora? Como emendar esses retalhos subjetivos, unir os formatos diversos, alinhá-los, costurá-los e até bordar a vestimenta que sempre esteve ali, na alma?

Acredito, e assim sigo, que é preciso continuar buscando as inquietudes, revivendo a infância, a história das nossas experiências para que possamos, enfim, criar, costurar detalhes e usufruir de nós, do nosso próprio corpo recriando um outro pensamento sobre nós! O desafio, talvez seja o de sair do comodismo, criar e/ou descobrir o estilo próprio. Para isso, que partamos da ação-reflexão/reflexão-ação.

Vamos encarar um caderno de anotação em branco, rabiscar formatos a partir das ideias que já temos ao rever os conceitos acerca de nós mesmas, e ir para mesa de corte, meter a mão na massa e construir nossa nova identidade! Ou seja, outros sentidos!

O nosso armarinho está repleto de aviamentos: Linhas, agulha, tesoura, alfinetes, tecidos, retalhos, até aviamentos especiais – surgidos do respeito à nossa própria essência construída até aqui. Em suma, com muita atenção e muito zelo, costuremos nossas vestes e lutemos por nós e para nós!!!

É imprescindível reconhecer nossas potências, tecer nossas peças identitárias e ainda mostrá-las! Mostremos nossas e outras várias autorrepresentações! Mas, para isso, lutemos pelos espaços em que possamos, realmente sermos ouvidos.

Reflexão tecida após o despertar das leituras: “Corpos Dóceis” de Michel Foucault; “Infância e História: ensaio sobre a destruição da experiência” de Giorgio Agamben; “Pedagogia da Autonomia” de Paulo Freire.

Um dia sairei de mim, e aí, realmente a [des]docilização avançará para outro patamar a partir de outras experiências!

[Paula Ferreira]

Outras inspirações:

O QUE PODE O CORPO, In: https://www.youtube.com/watch?v=oE3aoW2xp4w

O VALOR DA MUDANÇA, In: https://www.youtube.com/watch?v=5YWF7I4-Et8

 

De repente; Mãe, Esposa e Filha

Três coisas me tornei, abruptamente, nos últimos meses; mãe, esposa e filha. “Mãe”, mesmo não experienciado ainda, a arte de gerar e parir um filho. Pelo menos, em muitos momentos dessa nova situação, me percebo mãe. “Esposa”, sem nunca ter casado, mas a rotina, os afazeres, as cobranças me remetem ao imaginário que tenho sobre essa condição, ter marido/estar num casamento. “Filha”, o que realmente sou, mas, que nessa circunstância me parece ser a única coisa que não tenho sido.

Isso aqui não é uma lamentação! Pelo menos não deveria ser…

Estava voltando a ser filha. Na verdade, a reaprender a ser filha. Voltava a morar na casa dos pais. Isso, ainda envolvida com o sentimento tolo de “liberdade” após experiências em “liberdade” que completavam cinco anos em outro “mundo”, cuja “liberdade” nunca foi nem próxima da que imaginava que seria. [Um adendo] – Até dava para vivê-la, mas a docilização impregnada no corpo não permitia que ela passasse a ser salgada ou mesmo salobra de um dia para o outro. Esse retorno de voltar a ser filha, de readaptar, de ajudar e ser ajudada já era uma mudança e tanta, mas me parece que o desafio seria outro.

De volta, o que na verdade era para ser um recesso das férias universitária, mas, de repente, envolvida na luta pela vida de Ester, minha mãe, eu sequer conseguia ser a filha, do pai. Eu precisa mesmo era ser a filha, da mãe. Lamentavelmente deixei de ser a filha dela e tive que, dolorosamente, seguir o percurso de ser a filha de quem apenas me restava, o pai. Ele, envolvido na tristeza de perder a esposa depois de quase 40 anos de casado, compreensivelmente abalado e perdido, necessitava/necessita de ajuda. A filha, perdida também, mas com a função/desígnio/provação de tentar fazer a vida se aprumar, os ânimos acalmarem e o pai lidar com a perda, como se fosse possível, segue rumo a ser alguma coisa nessa mediação. Aí engole o choro, porque basta apenas um aos prantos, toma conta da situação pelo menos a da gestão emocional diária, da casa e de tudo que for preciso; médico, exames, INSS, advogado…, e nisso,  ainda perdida como filha, segue…

Os dias passaram. O Mestrado iniciou. As coisas iam mais ou menos toleráveis…

Cheguei até a comemorar, ingenuamente, após uma súbita emoção e satisfação de chegar da Universidade, nos primeiros dias, encontrar arroz pronto, salada, roupa na máquina… Quanta ingenuidade, alertou uma amiga após minha publicização. E foi ingenuidade mesmo! Isso não passou dos primeiros dias. Tudo voltou ao normal: “Não sei colocar roupa na máquina”, “os pratos estão sujos desde ontem”, “dá pra fritar um ovo”… Então, o que já estava posto, só naquele momento veio à tona, a constatação; – sou a mãe, a esposa e a filha do meu próprio pai. [Choquei!]

Não acho que tenho um fardo. É pesado demais pensar assim. O que tenho é um compromisso que firmei com ela, minha mãe, a esposa dele, no leito de sua morte. Mas é que essa adaptação de ser mãe e esposa, juntando a readaptação de ser filha tem sido algo pesado.

Aqui fiquei para consolar e ser consolada. Mas nessa de consolar, de se fazer de forte, engolir o choro, muita coisa se esvai. A anulação é algo que me incomoda. Andei refletindo e percebi um instinto materno, antes latente, e agora, imersa num mundo que havia desistido de viver. Não embevecida com esses pensamentos, mas sendo necessário encará-los, me veio as idéias básicas combatidas pelo feminismo; “não ao machismo”, “não a autoanulação”, “não a submissão”… Me percebi sufocada, apesar de não estar fazendo nada a mais do que a minha obrigação enquanto filha de pai idoso. Mas, sem ter com quem conversar, sem sequer ter espaço para retrucar, tudo tem sido estranho. É tão complexo tudo! Perder a mãe, consolar o pai, voltar a morar com o pai, estar sob sua dependência no momento…

Me pergunto se vale a pena mesmo conhecer ideais de uma vida possível que é quase impossível?  Estou exagerando, talvez. Tudo deve se encaixar. Considero esse eco como um desabafo, muitas orações desse texto como alegorias de uma mente confusa. Me perco no pensamento negativo do que farei adiante ou o que será dessa caixa de ferramenta que estou a engordar de elementos que nem mesmo sei para que ou para quem servirá. Servirá? “Mas eu sei que sou feliz e não sei!” Vida que segue!

“Um dia desses,

eu separo um tempinho

e ponho em dia todos os choros

que não tido tempo de chorar”.

Carlos Drummond de Andrade

Depois desse desabafo encontrei um texto compartilhado no facebook sobre essa temática que discorri.

Indico: NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA SERMOS APIS DOS NOSSOS PAIS. Disponível em: http://www.psicologiasdobrasil.com.br/nao-estamos-preparados-para-sermos-pais-dos-nossos-pais/#ixzz4A4hXUK3K

O Mestrado em Crítica Cultural

INÍCIO DE CONVERSA

Desde que me graduei, em 2008, aliás, ainda na graduação, já pensava no mestrado. Já pensava em continuar os estudos. Já questionava o curso de pedagogia, a minha escolha, a minha necessidade de mais, a minha pouca prática… Mas como a vida não é como a gente quer, e não acontece na hora que queremos,  tive que esperar e, enquanto esperava, vivia.

Para o meu ingresso no Programa de Pós-Crítica, Mestrado em Crítica Cultural em Letras pela Universidade Estadual da Bahia – UNEB, campus II, Alagoinhas – Bahia, na minha cidade natal, eu precisei passar por muita coisa e amadurecer um pouco. Aliás, muito! Isso está bem claro nos posts antigos! [risos]. Amadureci, um pouco, e iniciei o mestrado, justamente na terra natal. Seria ironia? E como se deu tudo isso? É preciso recordar, não tem jeito.

1. POR ONDE ANDEI

Morei dez anos em Salvador, três no Rio de Janeiro e quase dois em São Paulo. Quando fui morar em Salvador, não pensava jamais em voltar a morar em Alagoinhas. Eu achava que me diminuiria voltar para o interior, confesso. Também, porque eu queria sempre mais e a cidade não me proporcionava. Mas acho que o problema não estava apenas na cidade. Estava na criação familiar, na limitação de pensamento, no patriarcalismo, no machismo, na repressão… O problema, então, não era Alagoinhas.

1.1 Redoma de vidro

“Viver numa bolha”, ser protegida, ou reprimida, seilá, preciso assumir, por muito tempo foi cômodo. Apesar de parecer masoquismo, e para uma melhor compreensão, caso eu consiga explicar isso, vou historicizar essa minha life. Não vou falar claramente sobre cada mudança nesses quinze anos passados, principalmente, dos cinco últimos anos.  Penso ser mais importante usar uma experiência que ocorreu numa aula do mestrado e espero fazer uma analogia coerente. Então, vou me ater a um período, a infância.

Bom, a partir da leitura de Giorgio Agamben, do livro Infância e História: ensaio sobre a destruição da experiência,  que trata da infância e linguagem, da voz que delineia o indivíduo, cujo tema central é sobre a hermenêutica do sujeito. Sujeito transcendental. Sujeito do consciente. Heterogêneo. Rizomático. [Grifo meu], ao apontar o trabalho com a língua e a condição histórica relembrei um momento de minha vida. Ainda sobre o livro, o autor coloca que “é na linguagem e através da linguagem que o homem se constitui como sujeito”. A linguagem constitui o sujeito. O sujeito da experiência é o sujeito da ciência moderna. A língua é condição de história, condição de historicidade. Condição do ser humano se afirmar. O autor constrói um parâmetro sobre linguagem e trás um lumiar na perspectiva de repensar uma nova transcendência a partir da linguagem. Problematiza o conceito de experiência. 

Quando o autor discorre sobre uma possível destruição da experiência na vida moderna, instigou-me pensar sobre não haver destruição da experiência para haver o inexperiencível, e sim outro tipo de experiência. Para ele, a destruição não seria a morada do homem, mas sua saída. O senso comum é o sujeito da experiência. Isso fez refletir sobre não querer que as experiências sejam destruídas pelo cotidiano, pela rotina e perder a capacidade de ser criança. De rememorar, [grifo meu]. Por isso escrevo. Analiso o meu eu. Tento resolver minha mente, para mim, ultra complexa.

Após essa leitura, em sala, o professor fez um exercício que é o que quero trazer para falar desse subtópico: redoma de vidro, ou seja, viver na bolha. A atividade começou ao ele expor essa frase: “Pensar não é inato nem adquirido”. Trata-se de um pressuposto para pensar acerca da aquisição da língua na infância. Ele propôs que pensemos uma cena de linguagem memorável que marcou nossa infância. Pediu, então, que realizássemos um encontro com a palavra, uma representação semântica ou semiótica.

O dispositivo, a frase dada pelo professor, é uma ideia de Foucaut que reflete sobre a invisibilização do pensamento, pois é necessário condições para que o pensamento se dê. Ele combate a premissa platônica de que pensar é inato. A ideia defendida é de que o ser humano nasce com a potência de pensar, mas isso pode ser desviado. A barbárie (violência social/cultural) pode eliminar o criticismo e controlar o sujeito. Pensar é ato de resistência, enfrentamento. Nada é dado. O Si está entre o Saber e o Poder. O SiSerSujeito é o lugar dos extratos, da memória, das marcas no corpo, lugar de uma política da subjetividade, do distanciamento. [Grifos do professor Dr. Osmar Moreira, coordenador do programa do mestrado e ministrante da disciplina “Metodologia da Pesquisa em Crítica Cultural”].

Vamos ao exercício proposto! Após o professor lançar o dispositivo, lembrei-me das brincadeiras de infância na rua onde morava e voltei a morar aqui em Alagoinhas. Na época, a rua ainda era de areia. Brincávamos até altas horas, nas férias. Era meu momento de lazer, de descontração, de aproveitar o contato com outras pessoas, amigos, primos e vizinhos. A gente brincava de garrafão, baleado, cabaninha, pega pega, polícia e ladrão, entre outros. Lembro bem que sempre, nas brincadeiras de um segurar o outro e do momento de se esconder ou de ser “achada”, meus irmãos, um mais novo, dois anos e o outro mais velho, três anos, eles sempre diziam, caso alguém me puxasse (Esse alguém seriam os meninos),: – com Paula, não! Eu, “lerda” e ingênua, mesmo achando o máximo a proteção dos irmãos e, durante muitos anos, ter sido bom ser a menina protegida pelos irmãos, pai, tios, vizinhos, a filha de Ester e a filha de Pedro, eu me incomodava “inconscientemente”, pois embora fosse “lindo” ser protegida, eu  queria, claro, ser tratada igual às outras meninas e ter a mesma oportunidade de ser, “achada” pelos meninos. Como sempre fui muito da “lenta”, eu sentia isso apenas no inconsciente, o que me incomodava, mas nunca foi muito claro e não tomei uma postura até os vinte e cinco anos mais ou menos.

1.2 O start

Eu, nem sequer pensava que naquela fala dos irmão continha tanto significado e se estabelecia uma relação de poder e não de proteção. E aquilo iria perdurar por muitos anos. Que, por muitos anos, muita coisa era reflexo daquela proteção de do meu comodismo. Isso perdurou por muito tempo como já disse. Eu não tinha voz. Decidiam as coisas por mim.

Talvez, por isso, ao tomar consciência dessa inconsciência que latejava em mim a partir de leituras e vivências, mesmo não sendo tão compreensível, algumas inquietações foram ficando mais claras. Se tornou nítido que havia ali, uma relação de poder. Eu, a menina. Ele, meus irmãos, homens em obediência ao pai. Ruim isso? Por um lado não! Claro que não, mas por outro sim. Claro que sim.

As “marcas”, lembranças e essa história pontual, embora tenha demorado de se resolver dentro de mim, talvez, ao se tornar clara, um pouco mais clara, justifica o fato de eu, sempre, em qualquer circunstância, ao surgir oportunidades de vivenciar algo, imergir e de reagir a qualquer forma de controle, limitação e “proteção,  nos últimos cinco anos, principalmente, deflagrou, claramente, a vontade, disposição, militância de ser. Simplesmente ser! Sempre eu. De me encontrar comigo, de tentar me posicionar, de quebrar paradigmas. De viver!

Digo mais, de arriscar após, lentamente, descobrir que pagamos o preço pelas escolhas e, hoje, eu pago o preço, conscientemente, pelas minhas escolhas. Insisto em dizer que talvez,  gostar tanto de produção cultural, de movimentos culturais, de imersões culturais, seja um reflexo contrário à limitação relatada. Após essa reflexão, penso que, por isso, talvez, retardei de vir embora. De voltar para a casa dos pais. De voltar para Bahia. De voltar para o interior. O medo era voltar para a redoma de vidro.

O exercício foi muito bem aceito por mim, me possibilitou rememorar e reconhecer claramente, que “acordei” e, há muito tempo luto para que ninguém mais, ninguém, diga para mim o que eu poderia/posso ou não fazer. Porque eu decidi fazer! Embora retardadamente, mas eu decidi! Com Paula, sim!

2. ONDE ESTOU AGORA: por que esse mestrado

No Mestrado em Crítica Cultural na minha cidade natal, Alagoinhas – Bahia. Voltei a morar com meu pai, na mesma casa que morei por vinte anos, na mesma rua que brincava, agora asfaltada. Agora, eu, com trinta e quatro anos, mesmo ainda “retardatária” em algumas coisas, continuo a buscar o meu “Si”. Um sentido. Um caminho próprio. Mas não existe mais redoma de vidro. Não as impostas por ninguém. Talvez a que eu me impunha.

Ainda na linha de historicizar, trago uma passagem que se encontra no meu projeto de pesquisa de mestrado que foi submetido, aprovado e será financiado pela CAPES (é importante dizer, risos. A gente precisa que se valorizar). “Ao longo dos últimos 10 anos vivenciei importantes experiências culturais e me reconheci produtora de cultura (atuação que possibilitou ampliar o repertório cultural), e participar de projetos em ONGs e Coletivos Culturais Independentes no Rio de Janeiro. Colaborei com a implementação de atividades educomunicativas e integrei coletivos de produção audiovisual. Ao ter estudado direção de cinema e publicidade afirmativa como bolsista, conseguir fazer parte do corpo discente da USP, participando de  Iniciação Científica no campo das Artes e ser formada em pedagogia, se configuraram como experiências “rizomáticas” e “transversais” (Deleuze e Guattari, 1995). Estas vivências despertaram a vontade de contribuir com a reflexão sobre o desenvolvimento cultural de minha cidade natal e de trabalhar em conjunto com os que buscam a valorização de produtores e produções culturais periféricas. Acredito, portanto, que este projeto se integra à linha de pesquisa “Literatura, Produção Cultural e Modos de Vida, justamente, por objetivar analisar modos de produção de minorias, nesse caso, produtores culturais periféricos”. (SILVA, 2016, p. 3). [Muito metida. Citei a eu mesma! Risos].

Justificativa do projeto trago para deixar mais clara a ideia sobre o motivo, na verdade, a descoberta, ao voltar para Alagoinhas do interesse latente de ingressar no mestrado, Pós-Crítica em Alagoinhas. “Ao residir 20 anos em Alagoinhas, passar 14 anos fora e agora voltar à minha cidade natal, percebi que houve poucas mudanças na oferta de linguagens/produções culturais diversificadas, o que me provocou alguns questionamentos e me motivou a pesquisar esse cenário. Acredito também que este trabalho poderá contribuir com o fortalecimento de ações culturais periféricas ao serem visibilizadas e útil como orientação para um possível fomentando das especificidades da região”. (idem).

3. INCONCLUSÕES: por que voltei

Estou por aqui. Aqui no interior que disse que não voltaria. Não vim espontaneamente. Voltei por uma circunstância de saúde da minha mãe. Disseram que se não fosse isso eu não voltaria e continuaria a “fugir”. Prefiro acreditar que a gente pode até “pagar a língua” como dizem, mas o certo é que o que está dentro de nós e nos incomoda, se a gente deseja mudar, a gente vai e volta, sempre. Porque, ao estar aberta a mudar, ao aceitar os desafios, ao se confrontar e refletir, um dia, ao voltar a um lugar ou ao rememorar coisas, será bem mais confortável e já terá construído algumas respostas e se libertados de algumas “amarras”/”marcas”, eu creio. Certeza, não tenho. Nem quero ter.

Para finalizar, apenas o tópico, não a conclusão do pensamento, ecôo que estou feliz! Se não fosse a morte de mainha, há seis meses, eu estaria mais inteira, mas eu estou feliz. O pensamento de escrever sobre o mestrado foi justamente de dizer isso. Voltei para minha terra natal, estou ainda em readaptação, mas eu “caí” num programa de mestrado que me acolheu. E mais,  me provoca, desperta… Certamente, me trará outras respostas e reflexões. Agradeço por não ter passado no mestrado da USP. Agradeço.

Viver muito a mente, um problema?

Ela disse-me, assim; “Você vive muito a sua mente”.

Isso não foi uma crítica. Não foi uma afronta. Apenas uma interpretação…

E ser isso, muito intensa, envolvida com o seu “mundo”, ser visceral, aberta à vivências intensas, além de lírica e super,  “amor à flor da pele”, é o que é, e por que contestar?

Um autorreconhecimento: visceral aos extremos. Uma autobiografia: Virginiana. Andarilha. Caçadora de vivências. Aranha tecelã: é natural tecer teias por onde anda. Perdedora de miçangas. Achadora de pérolas. Colecionadora de encantos. Registradora de peripécias. 

Embora a interpretação da colega tenha sido exata, a imagem visualizada por ela não tinha antes sido pensada dessa forma, portanto, o susto foi grande. (Como somos contraditórios!!!)

12963599_995078993904851_1267533682375902511_n

Fonte: retirada do facebook do poeta Sérgio Vaz.

Essa interpretação veio de uma recém colega do mestrado que mal acabei de conhecer. Papeávamos num barzinho sobre várias coisas, e eu conversava bastante, pra variar… Não nego, fiquei surpresa com a leitura feita por ela. Isso levou-me a refletir, logo, a reconhecer: – Sim, eu realmente vivo muito a minha mente. Chego a não deixá-la descansar. Eu cobro muito dela. Eu a ameaço. A maltrato, muitas vezes. Eu a sufoco. Cruel?

Nessas de refletir, de viver a mente, de buscar soluções aos questionamentos de si, um texto salta aos meus olhos ao percorrer a timeline do facebook. Tchan!!!!!

O texto ajudou-me a aquietar. Por que será? rs 🙂

Conheça os 4 dons das pessoas altamente sensíveis

Disponível em: http://www.revistapazes.com/pas-2/

Como resolver isso? E tem que resolver? Talvez seja preciso uma mediação. Descansar é sempre bom e produtivo. E ser produtivo é o que me move. Mas sigo mais tranquila reconhecendo minhas especificidades, falhas e no rumo de uma labuta para tornar-me uma pessoa ainda melhor. Avante! Nos amemos!!! ❤

“Eu moro em mesmo

Não faz mal que o quarto seja pequeno.

É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”.

Mário Quitana

“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.

“Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas”.

Manoel de Barros

“Ninguém é bom o suficiente. Mas mesmo nos corações errantes, eis fagulhas de virtudes incrustadas nas sombras”.

Dostoiévski